PODER E NAÇÃO EM MEMÓRIAS E CRÔNICAS DE GRACILIANO RAMOS
O jornalista nordestino Luís Guttenberg ressaltou na televisão há poucas semanas a importância e a excelência do compromisso do escritor como testemunha da sociedade e do tempo em que vive. E exemplificava com o romance Angústia, do alagoano mais ilustre, o escritor Graciliano Ramos. Ressaltava o jornalista o fato verificado de que todas as personagens do romance de 1936 possuem seus correspondentes reais na cidade de Maceió da segunda década do século. Embora saibamos que Angústia não se torna o grande romance que é (e talvez o menos realista dos livros de Graciliano) pela simples constatação apresentada, embora também as mazelas climáticas e sub-regionais não sejam o principal dado, um desenho descritivo e crítico, muitas vezes carregado de acidez, do Nordeste e do Brasil como espaços de homens e mulheres, é sempre cuidadosamente feito e apresentado ao leitor, não só dos romances, como dos contos, das memórias, da correspondência e de crônicas de Linhas tortas e de Viventes das Alagoas. Na ficção encontramos Palmeira dos Índios em Caetés, Viçosa em S. Bernardo, Maceió em Angústia, o sertão pernambucano em Vidas secas. Na imaginação do menino de Infância e nas palavras de seu narrador adulto encontram-se o sertão e a mata, mas também o deserto sírio do Antigo Testamento, no meio de xique-xiques e mandacarus, o Império e a República como práticas de governos indefinidos e distantes do regime forte dos mandões locais. Mulas que carregam cadáveres gotejantes passeiam constantemente pela vila; pessoas são surradas em público. “Nunca vi regime mais forte”, diz o adulto experiente e vivido no final dos anos 30, que é quando se escreveram os relatos de Infância. A essa altura, o escritor já viajara para a capital federal em busca de trabalho, já sofrera a perda de parentes vitimados pela peste bubônica, já fora prefeito de Palmeira dos Índios, já havia sido diretor da Instrução Pública de Alagoas, já fora preso pela ditadura do Estado Novo, já se animalizara sob a tortura e a humilhação dos onze meses de cadeia.
Cerca de quarenta anos da primeira metade do século estão nas crônicas de Graciliano Ramos, publicadas na imprensa do Nordeste ou do Rio de Janeiro. Getúlio Vargas esteve no centro ou em torno do poder durante a grande parte desses anos. Suas ações e algumas falas são elogiadas ou ironicamente referidas. Bloqueado pela política provinciana que domina o País, Graciliano Ramos apresenta os galhos que tem de quebrar, para conseguir colocação de inspetor federal, e viver com sete filhos no Rio de Janeiro, depois de solto pelo regime do Estado Novo. Com sarcasmo, fala dessa contradição sem escondê-la.
Numa conhecida crônica intitulada “Norte e Sul”, Graciliano Ramos glosa, faz uso próprio e critica a concepção dualista, que separa dois brasis, que vem do século XIX e se cristalizou com Os sertões de Euclides da Cunha e o livro de Jacques Lambert.
Cônscio das limitações da escrita regionalista, crítico dos determinismos redutores praticados pelas convenções do Realismo e do Naturalismo, o geográfico não determina o histórico na escrita de Graciliano Ramos. Desde muito cedo, os ouvidos do menino das memórias começam a ler o mundo. A diferença entre os falares regionais do presos marca o microcosmo que se constrói nas Memórias do cárcere. Como em todo o Brasil, há gaúchos, nortistas, nordestinos, cariocas e alguns estrangeiros. As memórias desse cárcere são, evidentemente, também, memória do Brasil e das relações entre homens acuados, espezinhados e zoomorfizados.
A família, a escola e o Estado são instituições que se apresentam pelo poder essencial. É terrível o poder do pai, consubstanciado pela voz e pela tira de couro de um cinturão que esmaga a auto-estima porventura nascente no menino aprendiz da carta do ABC. O avô materno é um carnívoro, poderoso esfolador de reses. A família migra em busca de vida melhor entre zonas do Nordeste. Não se trata de uma das poucas famílias poderosas, que talvez seja uma só, apresentada por meia dúzia de sobrenomes num dos relatos de Infância.
Diretor da Instrução pública, o escritor observa o absurdo dos solecismos contidos na letra do Hino do Estado de Alagoas e decide abolir a prática do canto desses versos, pelos alunos das escolas públicas. Com imensa dificuldade o menino das memórias será alfabetizado, em casa e em escolas espalhadas pelo mundo exilado dos livros, em que foi criado como um pequeno animal.
A Igreja talvez seja o poder mais distante da cena dos escritos de Graciliano Ramos. Um padre representará, nos ouvidos do menino, a capacidade de tornar verossímeis as histórias épicas da Bíblia. Os folhetos e as folhinhas dos salesianos chegavam de Lisboa e falavam do fim do mundo e do inferno, coisas incompreensíveis.
A língua, área privilegiada do escritor, talvez seja o que mais oferece material para reflexão acerca do poder e dos desenhos de nação, nos escritos de Graciliano Ramos. É a língua que permite o sonho e propicia a criação de territórios acolhedores como o de Tatipirun, a terra dos meninos iguais.
Infância
Memórias do cárcere
Linhas tortas
Viventes das Alagoas
Cartas
Caetés
S. Bernardo
Angústia
Vidas secas